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Tell me now how should I fell

Vou entreabrir a cortina e olhar a lua. Sopros de esquecimento acalmam a minha agitação. A porta abre-se. O tigre salta. O terror entra. Terror e mais terror, perseguindo-me. Visitarei às escondidas os tesouros escondidos na minha solidão. Do outro lado do mundo há colunas de mármore reflectidas em lagos. A andorinha roça com as asas a superfície de lagos sombrios. Mas aqui a porta abre-se e entra gente. Vêm na minha direcção. Sorriem levemente para esconder a crueldade e a indiferença e apoderam-se de mim. A andorinha roça a superfície do lago e a lua solitária percorre mares azuis. Devo estender-lhe a mão; responder. Mas que resposta dar? Retrocedo com violência, sentindo escaldar o corpo desajeitado e exposto à indiferença e ao desdém dos homens, eu que imagino colunas de mármore e lagos onde as andorinhas molham as asas do outro lado do mundo. A noite adensou-se um pouco mais sobre as chaminés. Olhando sobre o ombro deste homem, vejo através da janela um gato tranquilo, que nenhuma luz ofusca e nenhuma seda tolhe. Um gato livre de parar, espreguiçar-se e recomeçar a andar. Odeio os pormenores da vida individual. Mas aqui sou obrigada a escutar. Um enorme peso me oprime. Não posso mover-me sem carregar o peso de séculos. Sou trespassada por um milhão de flechas. Sinto-me atingida pelo ridículo. Eu que seria capaz de expor o peito às tempestades e de me deixar alegremente cobrir pelo granizo, estou imobilizada.
Virginia Woolf

rainy days



Vou-me sentar aqui, respirar até doer
as coisas possíveis nunca reais;
aprender, nó a nó, como te soltas.
Vamos cair num poço, sem bússola e pára-quedas,
vamos ser o primeiro amor a dois no mundo.

António Franco Alexandre




há muito que deixei aquela praia
de grandes areias e grandes vagas
mas sou eu ainda quem na brisa respira
e é por mim que espera cintilando a maré vaza


Sophia de Mello Breyner Andresen



em pleno voo digo
nuvens relâmpago

ervas àguas

homem mulher

movimento oceanos

exaustos corpos transumantes paixões

digo
preciso do sonho
dos gestos exactos da alegria

Al Berto

Through your heart


Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho

Sophia de Mello Breyner Andresen

vendem-se sentimentos


Os meus sentimentos deviam guarda-los, ainda lhe podiam fazer falta, e a mim não me serviam de nada, devia tê-lo aconselhado a guardar os sentimentos, nunca sabemos quando precisamos dos sentimentos, da latinha de fermento que está há anos na despensa, da camisola de lã que não é vestida há mais de cinco Invernos, nunca se sabe quando precisamos de coisas mesmo se nunca as utilizamos, não fosse essa incerteza e punha um anúncio no jornal:Vendem-se sentimentos.Estado impecável, como novos. Oportunidade única. Motivo mudança de vida. Bom preço

Dulce Maria Cardoso

here is...





here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)
e. e. cummings

Às vezes paro à porta com o olhar perdido e habituado ao silêncio, há mais desertos ainda, dias e morte noutros olhos. Com a garganta habituada à sede,com os pés às feridas, saio para a rua e já não há umbrais. Ando um dia, passo outro, acabo uma semana de vidros partidos e tosse mais velha. Hoje parece que sempre choveu sobre mim, e não me importa se a chuva já não se parece ao esquecimento e apenas deixa charcos, paredes mais sujas e fuligem e tristeza nos olhos de rímel, ainda tenho sede e não me importa voltar às coisas más e aos velhos tugúrios à procura de algo que não encontro nem recordo, que costuma principiar por um encontro, talvez por outra palavra e corre o perigo de crispar-se até à forma da folha da faca. Às vezes tudo é tão estranho que não basta continuar a andar.
Alfonso Barrocal





Não sabemos nada.
Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio de um cais frio.
Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltámos a enganar.

Amalia Bautista





Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.

Complicações de luas e saliva

José Gomes Ferreira

éramos duas pessoas


Éramos duas pessoas que tinham um segredo de palavras.
Éramos duas pessoas que, ao longe, tinham partilhado um instante.
Éramos duas pessoas.
Tudo em nós era igual.
José Luís Peixoto

certas manhãs...





Certas manhãs chegava
esmagado pela luz
longo, frívolo, ofensivo
qualquer gesto aludia
a uma espécie de temor
a tristeza daqueles que pertencem
a lugar nenhum

Vivia tudo num instante
a solidão, os rancores
as alegrias dos outros
o silêncio do outono

Nunca o amor tocara o seu corpo
com a intensidade do medo
tornou-se parte de um rio
nem perto, nem longe
da palavra justa

Ele só pedia
"não me digam nada"

José Tolentino Mendonça

Porque não estás aqui?


"Porque não estás aqui?" Era a sua pergunta sem destinatário concreto ou conhecido, feita ao vazio e no vazio, na consciência de que nunca ninguém estaria ali, de que ali nunca haveria ninguém para vir ter com ela num tempo menos efémero, que a sua ruptura da noite teria de se fazer como até então, ao sabor das fomes repentinas e de encontros avulsos, de insatisfações permanentes e de aventuras sem compromisso, de fulgores precários e de breves epifanias, como as do fogo-de-artíficio a enredarem-se no fio de Ariane interminável que ela assim desenrolava no seu próprio labirinto e nunca a nada a poderia prendê-la e nunca ninguém haveria de indicar qualquer espécie de caminho que lhe dissesse respeito.

Vasco Graça Moura



Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque com a
forma de um grito de alegria.

Eugénio de Andrade




De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei

que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso.

Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

Nuno Júdice

o que nao te ensinarei...




E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.

Era disto que falavam as mães quando davam conselhos

às filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.

Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,

todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro

de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.



José Luís Peixoto

foi então que dei por mim a existir para lá da tua morte, como se asfixiasse. Mas o passado não é senão um sonho. Uma brincadeira com clepsidras avariadas e algum sangue.Não vale a pena estar triste.Todas as histórias, todas as mortes, acabam por se apagar.

Al Berto

Debruça-te para o interior do meu vazio. Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo - porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite.

Al Berto

tarde demais



Queres?
(No ar, a interrogação vibra como uma onda invisível.)
Queres?
(Pelo silêncio, não sei quem és, não sei a razão em mim que te deseja.)
Queres?
(É quase de manhã e poderíamos esquecer tudo, fazer as malas, dormir finalmente.)
Queres?
(Uma porta talvez aberta para talvez um abismo ou um deus.)

Quero.
(Já não podemos fugir aos nossos olhos inimagináveis, inalcançável é o cansaço.)
Quero.
(A luz do quarto continua acesa sobre a luz da manhã, tornamo-nos artificiais.)
Quero.
(Os nossos corpos, claro, sempre os nossos corpos, sempre apenas os nossos únicos corpos.)
Quero.
(Tarde demais.)

José Luís Peixoto, Gaveta de Papéis