Escorrem-lhe dos lábios palavras em fio como colares de pérolas ou flores ou saliva ou sangue apenas e tecem-se nelas o espanto e a angústia de se saber a dizer o que não quer que lhe saia da alma aprisionada entre os dedos. Nem a morte o quer assim com visões do indizível colorido que teima em sonhar para além da dor dos dias. Sobra-lhe a pele em cima do frio, os gestos que os ossos permitem por abandono de vontade e o riso sarcástico da solidão que respira por entre sapatos apressados a caminho da indiferença. Como sempre hoje há apenas esmolas sem ouvidos.
Ritual dos dias
autópsia de Lia C
Anjo datado de 93... porque é quase natal
E veio o anjo da festa com as asas mal postas e o halo à banda a descair... E veio a mãe o pai os irmãos e os amigos do anjo. E outros anjos vieram de asas bem postas e halos doirados a rebrilhar. E veio o que não quis que viesse e se fosse tão depressa quão tinha vindo ainda não era chegado e melhor teria sido que nunca o fosse. E as asas do anjo a cair e o halo à banda cada vez mais que a festa era grande como os outros queriam que fosse. Se calhar mais pequena mas grande demais e as asas apertavam. E o anjo já lá não estava que nunca sequer estivera embora todos julgassem que sim. E assim saiu sem sequer ter entrado sem ter encontrado e sem saber que já fora estava há muito tempo. E risos. E mágoas. E labirintos. E a solidão, a única. E a vontade de falar sem ter que falar. E o halo cada vez mais caído já doiam as asas de tanto fugir ao que nele estava e era. E a máscara. E fingir. Fingir que não era e não queria e não queria saber. Fingir que o fim já foi. Fingir que não dói e as asas já não deixam e caem e o halo à banda sem brilho. E as sandálias já rotas de tanto pensar o caminho.
autópsia de Lia C
Coisa nenhuma
Não sei porque é que estou aqui. Não sei porque disse sim ao convite quando sinto que destoo vestida com as minhas palavras exaustas de serem usadas onde não devem, com as minhas imagens a pairar sem rumo nem suporte, com os meus desassossegos intransmíssiveis por inépcia minha. Não sei que faço aqui... nem o que faço onde quer que seja. Talvez continuar a dizer coisa nenhuma... autópsia de Lia C