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9/11 - A Queda Inútil de Um Anjo


10 segundos entre a morte e a morte.


Foram 200 entre quase 3000 que o escolheram.


O mundo, como eles, continua a adiar o seu fim, segundo a segundo de vertigem e vôo livre.


Fotografia de Richard Drew.


***



A fotografia tem um rigor publicitário. Parece um passeio no ar, descontraído, leve, despreocupado, com a confiança de ter, sei lá, bebido um iogurte líquido qualquer com “bifinhos activos”, dos que por magia regulam o trânsito intestinal e fazem as pessoas caminhar no ar, cabeça no ar mas para baixo, um pino mais que acrobático, a demência de finalmente esvaziar a tripa da merda acumulada durante tempos e tempos de sofrimento agora resolvido no arrebentar do espartilho. O peido libertador.
Foi já dias depois deste voo que vi finalmente a fotografia de Richard Drew e, ainda estremunhado pela ocorrência, fui absorvendo as impressões que esta causou. Desde a simpática dor e repulsa provocada pelo momento suspenso que esta retrata, a morte adiada mais uns segundos, a inevitabilidade cruel contrastante com a calma aparente do passeio no ar, até a simples negação da ocorrência, como se a América não saltasse das janelas, passando pela crítica estéticoisa de jornalistas e fotógrafos, de tudo um pouco foi dito. Devo confessar que, pessoalmente, adorei a fotografia.

A verdade é que saltei, inconscientemente voluntário, preso na escolha entre o fogo que empola a pele e a faz crepitar até se tornar num torresmo disforme a cobrir um corpo que, a julgar pelos filmes que via, tende a assumir posições grotescas, e o chão onde me havia de estatelar e transformar numa amálgama de carne, ossos, baba e ranho, irreconhecível, e influenciado por todos os outros que via já a passar aéreos, quais anjos caóticos vindos de um céu vingativo de deuses doentes. Mas nunca pensei tornar-me uma figura pública, embora anónima, apenas por ter escolhido morrer dez segundos mais tarde. No entanto, compreendo a situação, cujos créditos devem ser por inteiro atribuídos ao fotógrafo, já que a minha prestação se limitou ao que podem ver: saltar.



Gostava de vos poder dizer que isto da morte é uma coisa impecável, é só paz e amor e assim. Também gostava de vos dizer que durante o voo vi o trailer da minha vida em flashback, que pensei nos meus e ainda tive tempo para uma breve oração em seu louvor e em louvor da paz mundial. Lamentavelmente, nada disso é verdade.
Em relação à morte, apenas vos posso dizer que se assemelha muito à simples preguiça que nos atinge aos domingos à tarde, com a diferença de não conseguir refastelar o corpo no sofá a ver episódios repetidos até à náusea de perdidos e investigações de crimes. Resumindo, a coisa é a simples não-existência, não inexistência porque, afinal de contas, estou aqui a contar-vos a história, mas aquela coisa límbica em que nos movemos e que estando, não estamos, assim como andar num nevoeiro perpétuo que, não cortando a luz, não deixa ver, e no qual nos movemos sem bússola e sem destino. É uma seca. Outra coisa que a morte me ensinou é que nela somos todos iguais. Uma espécie de marxismo mórbido ou anarquia infinita, em que a ordem não reina porque não há reino, nem ordem, nem nada. Somos iguais, ponto, e nem sequer sabemos quem está ao nosso lado para descobrirmos diferenças. Mais ainda: no caso específico da morte que involuntariamente escolhi, somos realmente iguais – a gravidade trata que qualquer um de nós chegue precisamente à mesma velocidade, qualquer que seja o peso, a cor, a classe social. Por estas e por outras, começa a custar-me desejar a paz universal. Estou convencido que para que tal aconteça, o mundo tem que deixar de ter seres humanos vivos.
Quanto aos meus sentimentos durante o voo, bom, posso assegurar-vos o seguinte: no momento em que os meus pés deixaram o parapeito da janela, arrependi-me imediatamente. Passados uns metros, poucos, a minha imaginação levava-me já ao chão, antevendo a massa disforme em que me iria transformar e magicando se, no contacto final com a terra que me viu nascer e que me criou e que, finalmente, me iria dar fim e guarida, iria sentir aquela picadela e roçar de ossos que senti quando parti a clavícula. Desisti de imediato, concentrando-me, tentando concentrar-me na queda em si. Mas havia o medo da dor. Penso que houve um momento em que a minha mulher e o meu filho me vieram à cabeça, pelo menos recordo-os e, sendo certo que estou morto, creio que essa recordação se deva a ter sido a última. Ou quero crer. Mas a verdade é que é mesmo a última que me lembro. Nem sequer me lembro de ter batido.
Acho que, antes de morrer, estava já morto por dentro.


Dez segundos. Aproximadamente. Os que nunca saltaram de pára-quedas devem ter alguma dificuldade em saber o que é isso. Os que já saltaram, devem ter a mesma dificuldade, já que traziam pára-quedas. Mas fechem os olhos e contem: um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete… oito… nove… eu saltei de olhos fechados e não os abri o caminho todo. Lembro a brisa, lembro o ruído, lembro, sobretudo, o medo. Medo que gostaria que o meu filho, que gostaria que o mundo não sentisse jamais.
Ouvi dizer que foi um avião desviado por terroristas e que morreram perto de três mil pessoas. Ouvi dizer que duzentas delas saltaram comigo.
Mas ouvi dizer que milhões estão vivos, muitos deles de saúde. E isso é bom de ouvir.

Se conseguir continuar esta “aparição”, talvez possa voltar para vos contar outras coisas que descobri.

allgarve - parto I



A silly season inicia-se com a preensão do país ao alto e com o povo a misturar-se ao jet set na auto-estrada rumo a sul, altura em que se separarão as águas, uns para povoar a Quarteira, outros para andar às voltas na marina de Vilamoura, outros ainda para serpentear nas ruas de Albufeira ou de Lagos, meia dúzia deles para se acostarem em remansos da Quinta do Lago. O cenário escolhido mediante as posses ou o cartão de crédito apresenta invariavelmente as ofertas de um Allgarve de poster: sol, praias de águas mornas e seios rosados, ingleses bêbedos acompanhando partenaires de bacocos vestidos nocturnos mais propícios ao engate fortuito, ementas em inglês, preços em libras, ou pelo menos ao seu valor.
Como diz António Lobo Antunes, o Allgarve é um cenário pintado em cartão. As figuras que nele se arrastam, lá ao longe na borda de água ou pelas calhas da cidade parecem alimentadas a sonhos de paraíso temperado com cerveja morna, tais seres borbulhantes de desejo de um dolce fare niente que sabem condenado à partida, e que tentam, a todo o custo abarcar na sua plenitude, entre passeios à beira mar e shots emborcados em pose histriónica, noite fora, noite anónima.
É o Allgarve do special cream constante da fabulosa obra literária apresentada pela Governadora Civil do burgo e que consagra a proeminente figura cultural de Zézé Camarinha, o homem que «comeu» para cima de mil mulheres e que delas guarda fotos com dedicatória para exibir a qualquer pasquim que lhe apareça. É o Allgarve dos hotéis que ostentam estrelas apenas correspondentes ao preço que cobram. É o Allgarve da festa permanente e da lata de atum em conserva. O Allgarve, enfim, de todos e para todos, bem vindos sejam os que vierem por bem, que aos que venham por mal os deuses castigarão por certo; a celeridade da justiça praticar-se-á póstuma, ao ritmo do sol deste canto que parece de outro país.

E, no entanto, não há ano em que não arrume as coisas na traquitana e me ponha a caminho para lá passar uma semana. Trata-se já de uma espécie de tradição de família, esta coisa de lá ir parar. Devo confessar que me faz bem.
Não somos adeptos de grandes confusões, festas, animações em technicolor, pelo que as nossas estadias no Allgarve se traduzem mais ou menos pela seguinte fórmula: apartamento – piscina – esplanada – praia – esplanada – piscina – apartamento – saída nocturna. Esta rotina parece ser a adequada a quem não quer fazer nada, inclusivamente pensar e, aparentemente, resulta.
Existem, ainda assim, algumas coisas que me fazem pensar e uma pergunta recorrente – que reflecte a minha profunda ignorância, a par da inequívoca condição de turista – assalta-se sempre que lá estou: onde vivem os allgarvios? Não espero resposta. Não sabê-la remete-me para a mais profunda ignorância acerca daquelas pessoas, deixando-me aceder a uma espécie de fleuma muito colonialista. É nestes momentos que consigo imaginar-me dono de uma qualquer fazenda em África ou na América latina. A verdade é que esta é a única semana em que tenho uma série de pessoas que estão lá para me servirem. Isso, o calor, as vias e os prédios mal enjorcados, a lentidão dos processos, a vida em câmara lenta, tudo isso junto me transporta para uma dessas situações em que, de fato de linho e panamá na cabeça, aceno ao empregado que, sorridente, me traz um copo e uma garrafa de uma qualquer bebida com álcool, mais os fósforos para o charuto que acendo em atitude contemplativa da descarga de mais um navio que chega. Por favor, não me interpretem mal. Ou façam-no, se preferirem. Ou se acharem interesse nisso.
Quanto ganhará um allgarvio? Pouco, decerto. Mas até isso parece dar colorido à história: afinal, de que me serve ir de férias se não tiver a impressão de ser rico? Sabendo, como sei com toda a certeza, que não hei-de misturar-me com o jet set (ok, o termo é abusivo, eu sei) em outro local que não seja a auto-estrada, sirvo-me desta triste oposição.

A realidade dos allgarvios parece ser esta, a de um povo eternamente colonizado por pessoas de fato de linho e panamá na cabeça, fumando charutos ostensivos e emborcando uns copos enquanto observam o trabalho mal pago, quando pago.
Trabalham de dia. Fazem biscates à noite. São portugueses, brasileiros e alguns outros de tez escura. O pouco que ganham serve para pagar o supermercado a preço de turista. Vivem nos arredores, em locais incógnitos. Movimentam-se nas ruas sorridentes «best drinks for you!» ou entre mesas «thank you sir, come again!». Cantam canções cabotinas dos pimba ingleses «sweet caroline» nas esquinas dos bares, de olho na camone bêbeda. «Clutching at Straws».
E eu, nós, movemo-nos no pitoresco da coisa, na apreciação das artes de vida, fotografamos e recordamos, fingindo não reparar em putos que se movem na noite pegajosa de mãos alarves. Somos simples, assim… «Lembras-te deste ano? O fulano que estava à porta daquele bar a cantar canções do Cat Stevens? E a inglesa da mesa ao canto?».
E os turistas continuam às voltas na marina de Vilamoura, sempre às voltas. Continuam a serpentear as ruas nocturnas entre canecas de cerveja. Continuam a arrastar-se à borda de água como lagostas suadas. Continuam a pagar, muito, sem pensar por um instante para onde irá esse dinheiro. Não lhes cabe a eles pensá-lo, afinal estão de férias.

As praias allgarvias são praias de calor e claridade, de cheiro a bronzeador e gritos de crianças. Estas praias são a razão da nossa ida anual ao Allgarve, já que em terras nortenhas, se bem que haja claridade e calor, já das águas não se poderá dizer o mesmo – embora deva confessar que, mesmo no Allgarve, será necessária alguma sorte para me apanhar em ambiente aquático, não porque não goste, que adoro, mas porque ainda assim a água me parece fria na maioria das vezes. As águas allgarvias são mais quentes alguns graus que as nortenhas e propiciam longos banhos restauradores do corpo que, debaixo do sol agressivo, parece empolar até estalar.
Uma das coisas que mais aprecio quando em férias nessas praias é a caminhada matinal, sem pressas, ao longo da linha da água, altura em que é permitido inspirar sem os cheiros agressivos que começarão a aparecer lá mais para o meio da manhã. Está mais calma, a praia, por essas horas, sendo possível apreciar devidamente a beleza da paisagem, coisa lunar em pleno dia de um lado, coisa aquática e apelativa por outro, descontado que fique o assassínio praticado pela construção à borda de água, sintoma da permissividade com que sucessivas administrações da região têm encarado a actividade. Mas concentro-me na paisagem, autêntico calmante e anti-depressivo, forma revigorante de arquitectura natural, quase a atestar uma presença divina de inspiração anárquica no seu conceito de arte.
De cada vez que acabo uma semana allgarvia, fica-me a impressão gravada de passos na areia. Talvez seja esta, acima de todas as recordações de férias allgarvias, a que mais claramente me assoma à lembrança de cada vez que esta me ocorre. E posso, por artes que desconheço, distinguir claramente as pegadas na areia impressas em 1998 das de 2006, por exemplo, embora possa mesmo esquecer-me do local onde estive. E se lembro coisas indubitavelmente mais importantes, como as férias de 1987 – as gaivotas que levantavam em debandada após a nossa noite não dormida mesmo ali na areia, registadas naquele rolo fotográfico que se perdeu, é um das imagens que não hei-de esquecer nunca -, subsiste a imagem de dois pares de pegadas paralelos, um par de pegadas descalças, outro de botas, que se entrecruzam, rodopiam, correm por vezes, até caírem e acabarem numa anarquia de areia revolta.
Costumo dizer que cada um de nós deve deixar a sua assinatura no mundo. Ainda não consegui deixar uma que se veja mas, entretanto, vou deixando pegadas por aí que, tais mandalas pacientes de um monge libertino, se desvanecem no tempo entre as vagas que se renovam.
São estes momentos que se transformam em imagens que me ligam ao Allgarve, mais do que as noites quentes de cerveja ou a cacofonia das ruas ou a allgaraviada em que me falam.

Mas há algo que as praias nortenhas têm, que as allgarvias não conseguem. Existe algo de real, de palpável nas praias do norte, uma coisa qualquer que as transforma em algo de nós, ou nos transforma em algo delas. Tem a ver com a realidade.
Numa praia nortenha, sentados entre o sargaço que vem dar à costa, sentimos a presença indiscutível do mar, ali em frente, rugindo, arrastando, salgando a areia com impetuosidade. O cenário não é já de cartão, as figuras – também aqui marionetas que cedem ao fascínio do sol – são diferentes na sua identidade, desaparecem as lagostas que se arrastam para dar lugar a uma outra espécie, a dos animais saltitantes que gritam, gesticulam, estrebucham, falam alto, mandam vir por tudo e por nada. Parecem ter nascido para importunar.
E são as rochas entre as quais o mar tenta desbravar caminho que nos centram o olhar e deixam que os olhos se prendam num singular movimento hipnótico ao sabor das ondas, até só se escutar o barulho da água. O horizonte tem pôr-do-sol em tons que se iniciam no azul, passam pelo esverdeado, se transformam ali mais acima numa espécie de laranja fogo, e retomam a ordem, já inversa, céu acima, por uma ou duas horas.
Foi numa dessas praias, quando sentados na areia à beira de água, reparei na maresia e disse «Estás a ver? É isto que falta no Allgarve: a maresia.» Ela concordou, olhando o mar, virando a cara para o sol alto e inspirando fundo. Eu olhei uma vez mais para o mar, bem lá para o fundo do horizonte, percorri-o com o olhar até às rochas que, ali à minha frente cortavam os resquícios de ondas que assomavam os nossos pés. Inspirei também, bem fundo e, pela primeira vez, um pensamento escondido tomou forma viva, parecendo abrir caminho por entre os meus pulmões, atropelando tudo o que à frente surgisse, tomando a forma de um indisfarçável suspiro entrecortado, para sair, mudo, ou talvez num leve movimento de lábios. «Preciso de ser livre.»

É este tipo de depressão pós-férias em que me encontro agora. Chegado de um mundo cinematográfico paralelo, em slow-motion, enfrento uma vez mais o tempo real, multitasked multiplexed a que a exigência de um vencimento mensal me obriga.
Sendo da opinião de que todos nós, na medida do possível, devemos contribuir com algo útil para a sociedade que nos alberga, sou, no entanto, obrigado a confessar a minha mais profunda preguiça. Não gosto de trabalhar.
Entendo o trabalho como algo que se faz em troca de uma sobrevivência básica. Não o entendo como produção de algo, isso é outra coisa. Entendo o trabalho como algo a que sou, por necessidade, obrigado a fazer. Gosto de fazer coisas, de produzir, de obter resultados, apenas e só enquanto a actividade me interessar. A partir do momento em que se torna rotina, passa a ser trabalho. No linguarejar profissional, sou o que se chama pomposamente um “homem de projectos”, o que equivale a dizer que sou daqueles tipos que gostam muito de ter ideias, de planear o trabalho, de colocar as coisas em marcha e depois deixar outros a fazer as coisas.
E quem não é assim?
O único facto lamentável em tudo isto é o de existirem realmente pessoas que fazem disso profissão e eu não ser uma delas, pelo que sou forçado a limitar-me diariamente ao ganha-pão automático. Mas tenho uma vidinha santa, em comparação à grande maioria. O que não me serve absolutamente para nada.

Assisti em tempos, numa conferência, à intervenção de um especialista em coaching que, entre outras ilusões, apregoava que devemos ser já o que pretendemos ser no futuro. Explicando, ele exemplificou com o caso de alguém que sendo, por exemplo, gestor, e querendo ser, por exemplo, escritor, deveria desde já, de imediato, passar a apresentar-se como escritor a quem lhe perguntasse o que faz na vida. Mesmo sem uma linha escrita, nada o impediria de se sentir um escritor, ainda que com essa particularidade de não ter – ainda – publicado um escrito. Segundo o orador, seria essa espécie de compromisso para com ele próprio que, assumido publicamente, o faria tornar-se um escritor.
Esta espécie de teoria não é totalmente ridícula e poderá até resultar em certa medida. No meu caso, não resultaria nunca pois nem sequer sei bem o que diria que sou. Escritor? Este texto é um claro exemplo do que não devo dizer que sou.
Um outro caso estranho de auto-motivação que conheci é o de um mecânico com quem trabalhei em tempos que, de cada vez que se encontrava desempregado – e foram algumas –, tratava de engravidar a mulher. Segundo ele, este era o incentivo máximo para arranjar trabalho, fosse ele qual fosse. Absurdo mas real. Tinha, quando lhe perdi o contacto, um rancho de filhos.

«Preciso de ser livre.» Livre de quê? Dos cenários de cartão do Allgarve ou da realidade das praias nortenhas? Ser livre das pegadas que traço ou da maresia que me traz de volta a casa?
Feitas as contas, talvez a única coisa de que necessite de ser livre seja de mim próprio.
E que fazer? Dizer já que sou o que quero ser? Arranjar obrigações urgentes que me obriguem a tomar uma atitude?
Creio que nem uma coisa nem a outra poderia resolver o que quer que fosse. Não sei o que quero ser e não tenho espaço em mim para mais obrigações.

O Cheiro dos Dias


A ressaca dos dias trazia-o à costa da forma habitual. Combalido, levantava primeiro a cabeça, deixando-se rolar na cama, qual insecto kafkiano em aprendizagem dos ritmos corporais, até alcançar o extremo, altura em que podia já colocar os pés no chão e levantar o torso cadavérico encimado pela cabeleira desgrenhada tão ao gosto da moda. O insistente sabor a papel químico que sentia na boca era já escovado enquanto analisava as olheiras que lhe emprestavam um ar heroin-chic. Preparava o banho. Uma vez saído, limpava-se atentamente, após o que espalhava pelo corpo e pela face toda a panóplia de cremes e lenitivos da dolorosa decadência a que se submetera. O cabelo a necessitar de cuidados. Voltava ao quarto e a música começava. Límpida, cativante, energética, bem ao sabor do seu tempo, ao sabor da passerelle diária entre tantos outros na cidade. Vestido, arranjado para a vida, dava uma palmada na cara na tentativa de ganhar alguma cor. Em vão. Sentado na cama, fazia traços no espelho de onde aspirava a vida. O cheiro dos dias. Com ar afectado e dançante, saía para a cidade. Nada como ser bonito.

Manifesto Sem Dedicatória Óbvia





A verdade? A verdade, meu amigo, é que tudo isto não passa de uma fétida e borbulhante feira de vaidades, uma mentira-espelho do nosso "quero ser", um reflexo de intangíveis presunções.


A verdade, meu amigo, é que não podemos ser outra coisa que não aquilo que somos, que a volta da vida termina em morte e que todos os minúsculos glóbulos do nosso ser para lá se encaminham, oxidados, num prenúncio da derradeira ficção por que o nosso ser clama, a da hedionda imortalidade.


A verdade, meu amigo, é que faças o que fizeres, aparentes o que aparentares, nada se assemelha à vida no seu ritmo obscuro que nos escapa à compreensão. E que, por muito que possas relativizar as coisas, não passas - tu e eu - de um abstracto monte de merda dotado de uma espécie de maquinaria de alta tecnologia que te empresta o ser que queres individual e que, no entanto, se move num padrão de agora e sempre amén.


E não fosse esta lucidez embriagada de um momento de perfeição alcoólica, e nunca te deitarias na contemplação do verdadeiro motivo da tua existência por estas paragens: a do verso vácuo, a da negligência do ser, a do faz-de-conta que sou algo.


Sente-te em primeiro, apalpa-te os poros de onde sai toda essa verborreia faminta de atenção, faz-te à vida real e olha em torno desse abundante sebo a que chamas ego - talvez consigas, enfim, divisar outro que não tu, que não a presunçosa imagem que de ti fazes.


Ah! o artista! Quanto de ridículo há em ti!


Nada do que fazes caberia na ópera bufa que a merda que eu produzo poderia vir um dia a constituir. És pequeno, como os demais, como eu, comparado com as leis que predominam no éter. Falas-me de deuses e de coisas abstractas como o amor, esquecendo os amores ódio da populaça - porque não a conheces, porque não pareces querer compreender que o amor é saliva, suor, sémen, toda a porcaria possível e imaginária que é, no fim, um qualquer poema - esse sim - de Scola, porque te julgas acima dela.


Ah, artista!, olha em volta e nota o ridículo que há em ti. Vê as secreções que o imaginário que sugeres origina, ousa responder-lhes na toada e diz-me: era isso o planeado? Pensavas tu que estavas acima da linha de água... Mas o esgoto em que te moves, o da pútrida carne feita homem, é assim mesmo: um imenso regurgitar de versos e poemas falsos, um imenso paroxismo de ineficaz fado.


Salva-te, enquanto tens a mínima ideia de realidade, faz por seres. Só isso, e, para nosso bem, nunca mais escreveres.



VAI

À

MERDA

1011110000101010 110 0

I/O
binário simétrico diametral
I/O

oposto antónimo bipolar
I/O
morte nascimento vida indiferença
liga
re-liga
monotonia
OFF
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2008


2008  www.deictico.org


Mais uma meia-noite de todas as decisões. O espaço para lá da meia-noite é uma nebulosa de imagens de sucessos arrepiantes em que todos os planos futuros dão certo. E é desta que se deixa de fumar, que passamos a ir ao ginásio, que vamos estar mais tempo em casa e menos no gabinete. Será desta que conseguiremos ter um projecto aprovado e que a Administração, finalmente, reconhecerá o nosso trabalho. É o espaço para todas as promessas e desejos que, como agora, hão-de ser cumpridos uns, verão o insucesso outros, serão ainda simplesmente esquecidos a maioria deles.
Falar em mais um ano que chega é simplesmente falar no que está já devidamente agendado, em moleskines intermináveis, agendas de e-mail, lembretes no telemóvel. Mais tempos sobre tempos, na inexorável sucessão que nos leva à desconfortável velhice.
O espaço para lá da meia-noite é uma excrescência da nossa frustração.

Mas este ano que chega é como que um acumular de tensões, algo que nos reserva um não-sei-quê de escuro, de temor. É um ano de proibições, um ano de censura, um ano de simulacros de liberdade espartilhada pela taxa de juro e por um conceito de Europa. É um ano em que se sancionam jogos de Paz em terras de ódio, é um ano em que se negoceia abertamente com ditadores, é um ano em que a Guerra, omnipresente, dará os seus frutos em economias amigas. É um ano em que alguns portarão estrelas de David ao peito e em que outros poderão telefonar, escrever, apontar o próximo com a devida sanção e incentivo dos estados. Um ano em que os deuses ficarão mais próximos do Homem, com tudo o que de funesto isso pode trazer: a pobreza, a ignorância, a falsa noção de família, o pecado, a guerra.
É um ano em que ser blogger talvez venha a ter a sua importância.

Este ano que chega é, inevitavelmente, a continuação do que acaba. Porque o calendário é apenas uma invenção do Homem que gosta de se cercar a ele próprio de convenções que o localizem, que lhe atribuam um espaço, um agora, uma verdade, um eu. O calendário é, por assim dizer, a invenção última do Homem para justificar a sua presença, para dizer “Nós conhecemos o tempo, sabemos o que fazer com ele”. Nada mais falso.
E irão nascer uns e morrer outros, para suprema alegria do mundo assim rejuvenescido. E irão existir sucessos contados com alegria, assim como falhanços e desistências. Irão, como sempre, existir amores e ódios, alegrias e tristezas. E o mundo há-de continuar a girar, e nós com ele, como burros aparelhados à nora que, em silêncio cumprem a sua função, debatendo-se, em teimosia, mas sempre amarrados à canga, ao jugo, neste movimento circular que é, afinal, o nosso ser.

O que fazer?, devia ser, mais que decisões tomadas em refugo da ardência sobrealimentada a cálices de vinho do Porto e espumante, a pergunta de fim de ano. O que fazer? O que posso eu fazer em relação ao mundo? O que devo eu ser para o mundo? Que lhe devo eu dar? A pergunta é, já assim, incómoda. Sê-lo-á ainda mais se a fizermos mesmo. Porque a vida não dá muito espaço à filosofia, arte vã para os que trabalham para comprar comida. O que fazer?, dirão os mais dotados de liberdade, daqueles segundos de liberdade que entre uma volta e outra na nora conseguem ter no breve momento em que fecham os olhos. Mas logo a vara lhes assenta, a vara dos que, atrás amarrados mas pensando-se fora da nora, vai empurrando os que, à sua frente, sentem a história que, externa à vida real, lhes é inscrita.

É mais um ano, o que se aproxima e, daqui de onde eu vejo as coisas, não existem muitos motivos para festejar. Irá valer-me o facto de, durante uma horas, poder ver faces felizes e esperançosas, olhar nos olhos das pessoas e ler-lhes memórias, esperanças e decisões. Irá valer-me o facto de existir ainda, em cada um de nós, aquela centelha que nos faz saber aproveitar a ocasião. Porque nós somos assim, artífices do tempo presente, que vamos construindo, embora sem disso darmos conta. O futuro é o tempo construído agora, não com pensamentos ou planos, mas sim nas mais simples coisas que façamos neste momento.

Feliz 2008 para todos.

Natal


Natal  foto de CJT para www.deictico.org


A cor do natal é um amarelado de fotografia gasta pela memória de risos. Cada natal que passa parece ter acontecido há séculos e, no preciso momento em que existe, sinto o paradoxo de ser já um tempo passado como se correndo à velocidade da luz tivesse, num segundo, dado a volta aos universos para constatar que o tempo presente não é mais que uma ilusão, um fogo fátuo.
A ilusão do natal é precisamente essa, a de que o tempo resta imutável, como as pessoas. E, no entanto, tudo muda de ano para ano. Inexoravelmente. Por vezes imperceptivelmente, tudo muda, embora a maioria das vezes sem algo de verdadeiramente novo que se possa registar.
A única coisa que faz de um natal algo de verdadeiramente novo é, suprema coerência, um nascimento, uma alma fresca a juntar-se à fotografia. São os risos da canalha que dão outro colorido ao natal e, sem eles, a época não é mais que um reavivar de fogueiras que vão perdendo o calor no decurso do restante ano. A canalha nascida e pertencente agora ao presépio em que todos nos transformamos faz de nós o quadro a que nos habituamos; e assim nos deixamos ficar, embevecidos pelos risos e diabruras, deixados que somos ao sabor de outras recordações, talvez a dos nossos próprios risos que a memória, cruel, cedo nos roubou.
Tudo o resto é festa, uma simples e interminável festa.

Haverão muitos que recordem natais passados. Eu não me recordo de muitos. Recordo apenas aqueles em que o meu filho foi criança, tenho a sorte de ter tido esse prazer, o de ter tido uma criança-natal durante alguns anos, os suficientes para poder, junto com ele, rir e desembaraçar as prendas dos desnecessários embrulhos.
Não creio que o meu filho recorde esses natais. Serei, junto com todos os que com ele riram nessas noites, nada mais que uma ténue impressão, indistinta num limbo cerebral qualquer que faz, que fará do natal uma época que parece inscrita na nossa herança genética semelhante a todas as outras e que, sem significado aparente, nos fazemos cumprir – uma espécie de regra, a distinção que faz de nós o que somos, o indivíduo em si, a memória. Porque nada mais somos do que a nossa memória.
E é essa memória que faz de nós o que somos a mesma que nos atraiçoa. Porque somente ao fim de muitos e muitos anos somos capazes de compreender, de interligar todos os pequenos fragmentos, todos os estilhaços que a compõem e, finalmente, dar-lhe algum sentido, ainda que aparente, que nos permita fazer uma espécie de fio condutor explicativo das coisas. De todas aquelas pequenas coisas que não aparecem na fotografia amarelecida pelo tempo ou que, aparecendo, estão lá em contornos indefinidos, manchas de tempo, fantasmas que nos sussurram algo que não conseguimos entender no meio da cacofonia estridente que é a vida. Tenho a secreta esperança que o meu filho, outrora criança-natal, possa um dia vir a conseguir acabar o puzzle de fotografias, talvez dar-lhes cor. Porque todos temos algo a justificar.

O natal dura enquanto duram os velhos. Uma vez partidos, o natal cessa a sua forma de tantos anos, reparte-se em novos espaços, fragmenta-se em novos presépios, tantos quantos os que outrora ofereceram meninos-natal a esses velhos.
São os velhos os guardiães do natal, são eles quem insiste na presença física dos que lá aparecem e, mais que isso, na presença de todos, mesmo todos. Dos filhos e netos especialmente, mas também dos que partiram, de todos os ausentes. É possível, se observarmos com atenção, notar que por vezes eles não estão a falar somente com quem está à mesa. É possível notar-lhes nos olhos as ocasiões em que se viram para dentro, em conversas secretas com outros que, não estando ali, lhes são presentes, cada vez mais. Porque são esses quem lhes faz companhia durante o resto do ano.
E o natal é, para eles, o dia de casa cheia de vida, dia em que são lembrados.
Lambuzam-se de histórias de sucesso contadas pelos filhos, aquecem-se com os projectos irrealistas dos netos, vivem, enfim, um dia, aquele dia em que as famílias o são ou tentam sê-lo. E sabem, no íntimo, que aquele pode sempre ser o último, sabem que a sê-lo, que este o deve ser em condições: em paz, em alegria, em família, em suma, uma boa memória. Porque nós somos a nossa memória, mais vale sermos uma memória feliz.

Um dia o natal há-de cessar na minha vida. Creio que isso seja inevitável.
Sendo como sou, não creio que vá dar demasiada importância ao facto. Sou do género de pessoa que aprendeu a fazer-se sozinha, cedo na vida, e tenho aquele tipo de orgulho mesquinho que me afasta destas coisas e que, consequentemente, acaba por me afastar da memória das pessoas.
A falta de natal na minha vida será da minha inteira responsabilidade e será com esse tipo de orgulho – o tal – que enfrentarei as fotografias amarelecidas da minha vida, com cada vez mais fantasmas e cada vez menos corpos presentes. Não serei, espero, do tipo que começa a ler o jornal pelas páginas de necrologia em busca de amigos de escola. Sei que a vida não será pródiga em dias de companhia que não seja a da minha querida mulher, a única pessoa que, apesar de tudo, lá vai aturando este feitio filho da puta. Se o conseguir aturar muitos mais anos.
Mas estou convencido que hão-de haver dias em que desejarei um natal, seja ele em Dezembro ou em Julho, tanto faz. Dias em que a memória me pregará partidas e me confrontará com aquilo que realmente sou: um fotograma recorrente na memória aleatória dos dias, destes dias que se vão apagando sem eu me dar conta.

Manhã Cedo

Manhã Cedo  original de CJT para www.deictico.org


Olhou-se ao espelho após o banho. Seria, indubitavelmente, com aquela mesma cara que iria, uma vez mais, enfrentar o dia. Nos últimos tempos a sua vida tinha-se tornado um género de lento e agonizante processo de desintoxicação. Um dia de cada vez, sendo cada um deles mais uma vitória conquistada sobre a urgência. Um gerúndio interminavel. Resolveu-se e, saindo da casa de banho que deixava o vapor perfumado do banho humedecer a tela exposta na parede frente à porta, dirigiu-se ao guarda-fatos. Iria de fato. Escolheu aquele que lhe pareceu mais sóbrio, mais profissional - afinal, ele tinha aqueles bons fatos que lhe davam, diria, uma determinada distinção, aquele tipo de presença "jovem quadro dinâmico" tão apreciada pelas outras pessoas. "Sr. Doutor", diriam até. Teria, como costume, o cuidado de apertar os atacadores ainda sem ter vestido a camisa pois, caso contrário, amarrotá-la-ia. Fez o nó de gravata do costume - o que tinha aprendido com quinze anos ainda - e acertou-lhe a ponta pelo meio da fivela. Coisa sóbria. Não gostava mesmo nada daqueles nós que parecem estar a segurar a cabeça pelo queixo tão ao gosto das cabeças cheias de gel e penteados de yuppie tardio. Gostava de si sóbrio. Vestiu o casaco certificando-se da presença da carteira e olhou-se ao espelho dando um jeito ao cabelo rebelde. Aproximou-se para verificar se estava bem escanhoado e detectou aqui e ali um ou outro ponto negro. Não seria por isso. Muito pior eram os dentes amarelecidos por anos de nicotina, esses sim, a fazerem-se notar tanto quanto um semáforo amarelo nos diz "tem cuidado, abranda!". Apertou o botão e saíu de casa para a rua, fato escuro, sapatos pretos, cabelo escuro, o porte seguro que os seus 38 anos de idade lhe conferiam, tudo parecia combinar naquela manhã fresca de início de Inverno.

Não iria de carro, a sua mulher tinha-o levado para o trabalho. Iria de autocarro, ou melhor: iria a pé. Não era longe e a caminhada seria revigorante, dando-lhe tempo para pensar nas atitudes a tomar, para planear a sua actuação ao mínimo detalhe. Não gostava de deixar estas coisas correrem ao acaso e tinha por hábito ensaiar as coisas pelo caminho, murmurando aqui e ali conversas imaginadas, sorrisos até que lhe afloravam o rosto pondo as pessoas que por ele passavam a pensar no que se passaria na cabeça de um homem para, logo de manhã cedo, ter motivos para sorrir, coisa não muito normal, decerto. Chegado à Avenida estava já perto, talvez aí a uns quinhentos metros do destino. Havia ali um café pelo que, ainda em jejum, resolveu entrar para tomar um café e ler as primeiras páginas dos jornais expostos na tabacaria. Na entrada, resolveu avaliar as impressões que causaria. Entrou desenvolto, olhando em frente e tentando abranger a "audiência" com a sua visão periférica, chegando ao balcão com um sonoro "Bom dia!, um café, por favor." Alguns voltaram-se para ver quem chegava, tinha divisado algumas pessoas que o seguiam com o olhar. Certificou-se de ter tudo no devido lugar e em condições e sentiu-se satisfeito consigo próprio. Conseguira chamar a atenção das pessoas, com tempo, se o tivesse e se necessário fosse, conseguiria também ter-lhes causado boa impressão. Pagou o café e saiu.

Chegara enfim à recepção. Ainda cá fora, olhou para o interior pelas portas de vidro, divisando a fila que curvava no seu interior. Logo ali, do lado de dentro, um porteiro fardado exercia um sonambulismo sem dúvida ensaiado a todas as horas do dia, distribuindo aqui e ali formulários para preenchimento e dando indicações acerca dos guichets mais apropriados para o assunto. Fazia-o com uma espécie de resignação para com a vida confinada a quatro metros quadrados de área sem grades de uma prisão quase perpétua: não olhava para ninguém, para nada, mantendo os olhos vagos serenamente postos nos papeis que distribuia mecanicamente e aos quais juntava uma voz monocórdica que lhe emprestava uma atitude de robot complacente. Entrou e disparou-lhe um dos melhores "Bom dia!" que alguma vez tinha conseguido. O homem, pela primeira vez, levantou o olhar e balbuciou um bom dia, sem dúvida não compreendendo o motivo para tal saudação. Ele não estava ali, definitivamente, para isso. Sorriu e tentou um "faxavor" simpático, levantando-se da cadeira. "Poderia informar-me onde obter informações acerca da possibilidade de uma entrevista para emprego?", perguntou ao porteiro. O porteiro, de repente, ficou pensativo. O sorriso tinha-lhe desaparecido da face. "Mas o senhor está aqui para quê, afinal? Tem alguma marcação com a Senhora Doutora?", sentou-se olhando uma vez mais os papeis. "Não", respondeu-lhe. "Enfim... gostaria de falar com ela, se fosse possível, uma vez que será ela, concerteza, que irá informar-me dos proce..." foi interrompido abruptamente. "Mas você está aqui para o 'desemprego' ou não?" O "Senhor" tinha já desaparecido de cena. "Desculpe-me, não me fiz entender. A minha ideia é precisamente evitar o desemprego. O que eu quero é arranjar trabalho!", explicou-lhe deixando escapar uma ponta de nervosismo que corrigiu prontamente com um sorriso. O outro olhou-o uma vez mais e, calmamente, tirou três formulários da secretária, explicando "Este, você preenche-o e entrega ali no guichet três; este, é para entregar depois, quando for chamado. Não o preencha, eles é que fazem isso. E este é para levar para casa e trazer quando for chamado". Objectou. Não estava ali para isso. Apenas queria saber como proceder melhor para tentar recomeçar a trabalhar o mais rapidamente possível. Quer dizer... ele nem sequer queria um subsídio. O porteiro fez um gesto de impaciência com a mão, para que ele circulasse ou tomasse a sua posição na longa fila. Dirigiu-se para lá, para o fim da fila. O ruído das pessoas, naquela límpida manhã de início de inverno, começava a tornar-se insuportável.

[continua]

PowerPoint





Powerpoint  www.deictico.org



A sala tinha as mesas dispostas em “U” e, na penumbra, alguns dormitavam enquanto outros tentavam, a todo o custo, permanecer de olhos abertos. Haveria um ou outro que, interessados, tomavam apontamentos mas o sentimento generalizado era o de que o coffee break tardava e que a sucessão de slides PowerPoint se tornava, por cada um que aparecia na tela, um fardo cada vez mais insuportável.
De quando em quando, o ruído aparecia: ou alguém respondia a uma chamada supostamente urgente, falando em surdina com a mão tapando a boca em forma de concha, ou eram os rebuçados que iam desaparecendo das taças dispostas estrategicamente a cada dois lugares.
XIS continuava a sua apresentação como se o mundo lhe fosse externo. Gráfico após gráfico, iam surgindo os números, ora do sucesso, ora da desgraça. E todos eles eram ditados por XIS de uma forma monocórdica, seguindo-os um a um, sem deixar escapar fosse qual fosse, não fosse o mundo acabar ali mesmo, de repente, esquecida ficasse uma percentagem de subida das vendas ou de retracção do mercado.
“Conforme podem verificar”, dizia com a voz nasalada, “temos aqui um crescimento de doze por cento de 2004 para 2005”, e o vento lá fora insistia numa constante perseguição das folhas que rodopiavam, “e, como podem ver, de 2005 para 2006 continua o crescimento, desta vez de apenas três por cento”… a sala iniciava a sua transformação, esbatendo-se. A assistência fundia-se já numa consistência caramelizada e ficava grudada às mesas e cadeiras. Não conseguiam mover mais nada a não ser os olhos que fitavam mais um slide, desta feita com os valores em euros. “De 2006 para 2007”, nasalada a voz, dizia “treuze por cento” e a cerveja fresca que a rapariga da FHM cuja capa tinha visto na área de serviço me tinha trazido escorregava já pela goela ressequida pela percentagem. O sol punha-se num daqueles momentos gloriosos [“quinze por cento”] e apenas a visão de três Reis Magos lá ao fundo, à beira de água me fez estranhar algo na paisagem [“de 2004 para 2005”]. Já tinha deixado de ligar aos Homens-Caramelo que jaziam debaixo de gráficos de barras [“uma subida de quatro por cento”] e juro que não reparei qual a altura exacta em que XIS se transformou num peixe-balão e saiu voando muito lentamente, inchado por completo e abanando a barbatana, lentamente pelo ar fora, janela fora, campos fora até ao pôr-do-sol, arrotando aqui e ali uns dez por cento entre 2006 e 2007.
A vertigem estava acabada e ele olhava uma vez mais a assistência com o costumeiro olhar bovino de vaca do Menino Jesus, rosto de serafim autista apanhado em plena masturbação. A assistência olhava em silêncio, tentando determinar se o peixe-balão voltaria ao pódio com mais uma série de slides com gráficos, percentagens, valores em unidades de venda e em euros, tudo muito bem alinhadinho, tudo muito monocromático, tudo muito monocórdico, tudo muito morfinizado. A vaca peixe-balão serafim autista deitou um último olhar de menino culpado à audiência e despediu-se.
O coffee break veio mesmo a calhar.

AUTÓPSIA DA DECADÊNCIA

Não lhe conhecemos a cara, apenas o nome e a desconfortável situação de ter nascido num corpo estranho, coisa que à maioria de nós ultrapassa o sentido.
Nascida Gisberto, deu em Gisberta por opção firme e contrariando o mundo. Talvez tenha sido essa opção que a fez viver a vida que viveu, talvez tenha sido essa que lhe tenha provocado a morte. E não foi uma morte normal, foi violenta, de excessiva violência.
Foi espancada, violentada e atirada a um poço, sabe-se que ainda viva, por um grupo de jovens atiçados por motivações que só a psicologia e a psiquiatria entendem.
Não vou aqui tecer considerações muito vastas acerca do assunto mas vejo-me obrigado a pensar na vítima primeira, a Gisberta e na vítima segunda, a sociedade.
Gisberta morreu. Está morta para sempre, facto incontornável provado pelo corpo analisado na morgue. Os miúdos que cometeram este hediondo crime foram julgados e condenados a penas de semi-internato por períodos de relativa duração, como o são todas as durações e, por fim, a instituição que os abrigava irá ser, ao que parece, objecto de processo.
O que está mal neste panorama?
O que está mal é a forma como se diz a qualquer puto que poderá, a partir de agora, espancar, violentar, assassinar, profanar o cadáver de qualquer transexual, bicha, drogado, preto, arrumador, velho, indigente, sem-abrigo, que a pena não há-de ser grande coisa. É a forma como se diz a qualquer meliante que, de ora em diante, poderá usar crianças para concretizar assaltos e danos, ataques, seja o que for.
O que está mal é ficarmos a saber que a Lei, serva da Justiça, e que deveria ser a garantia de que todos somos, efectivamente, iguais, apenas serve para nos informar que nós, a sociedade, estamos tão mortos como a Gisberta.
Agora vamos todos esquecer Gisberta se é que alguma vez a lembramos. É que ela nunca apareceu na televisão... existirá?
Adeus, Gi.

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Estou um bocado farto do erros e coisas estranhas do Blogger.
Vai daí, e continuando com a minha tradição de "blog killing", mudei de casa.
Arranjei lugar no Wordpress que permitiu a importação de todos os posts e comentários (!) para lá, pelo que não perdi nada.
Para além disso, tem outras funcionalidades que me agradam.
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O [em nome próprio ] a partir de agora mora aqui.
Os comentários estão abertos a todos, provavelmente sujeitos a moderação (ainda estou em fase de aprendizagem...)
Obrigado a todos. Apareçam, espero por vós.
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Um grande abraço,
CT

a alice mora aqui

O "paralelas divergentes", o "autópsia da decadência", o "as palavras por dentro" são, à semelhança dos espaços próprios de cada um dos seu autores, apenas cores distintas de uma única bandeira, a da liberdade, igualdade, fraternidade, amor, justiça...
a descrição do "palavras", na sua última edição canta:

"Também aqui se dá livre curso ao Espaço ocupado por seres imaginários que
correm à rédea solta por locais de tristeza e felicidade, de sexo e de emoção,
de violência e de paz, de deuses e de homensespaço povoado de palavras que não
querem necessariamente dizer alguma coisa, não querem necessariamente apregoar a
verdade ou ter a razão do seu lado… são palavras apenas ou qualquer coisa mais
mas sempre democráticas, anti-fascistas, anti-violência, anti-racistaspró paz,
pró-humanidade, pró-desenvolvimento saudável dos povos e, claro... muito, mas
mesmo muito pró-imaginação
enfim, é um espaço de fé, como a fé do cão que continua a rodar sobre si
próprio tentando morder a cauda...... e é grátis...
Existe uma língua comum a todos os participantes neste espaço: a
LIBERDADE"

É pois, com muito pesar, que registo o que se passa no mundo da Alice.
No entanto, é com alegria que digo que esta continuará a frequentar estes espaços.
Quando queira.
Como queira.


a_mar


beija-me,
beija-me o primeiro beijo uma vez mais.
fecha os olhos em antecipação
do frémito do corpo que amaste um dia,
desenha-lhe agora hálitos confusos,
serpentinas no tempo,
espirais de vontade.
cala-me os lábios com um sorriso
e depois, calmamente, com cuidado,
descola-te de mim sem adeus.
ou façamos um beijo desesperado,
desalmado.
só corpos
suemos cascatas de prazer sentido
no limite da consciência,
ou percamo-la, até.
beija-me
como se a memória fosse a última das derrotas,
beija-me no presente,
por quem sou.
beija-me então sem sentido,
sem rectidão, dá-me o beijo imoral.
beija-me ao engano,
perde-te por mim fora e oferece-me aos deuses da morte
se quiseres.
mas beija-me o primeiro beijo.
e esse, por favor,
guarda-o só para mim.

Sandra

Sandra Araújo não via nenhum espírito maligno mas ouvia-lhe a voz atrás da porta do quarto. “Vou-te matar, és muito bonita, vou-te matar, és muito bonita… era Satanás, era”, convence-se.
Esbugalha os olhos, é uma mulher bonita, de 35 anos que soma 20 de internamentos.
O delírio é quase constante. “Fui ao Tallon, pesava 95 quilos. Agora tenho 95 quilos, 1 metro e 70. Media 1 metro e 69,7, pesava 120 quilos. Quando fui ao Tallon pesava 120 quilos, não, 130. Fui ao Tallon e estraguei a minha vida toda. Comecei a ter náuseas, alucinações, alucinações, desmaiava, não queria comer, não queria comer. Estava a tomar os medicamentos mas fazia mal. Em vez de tomar um, tomava 3. Para emagrecer depressa”. Resultado: “Em 15 dias passei de 130 quilos para 53. Parece mentira mas é verdade”, afiança.
Como é verdadeiro, mas só para ela, que em Julho vai passar 3 meses na Noruega, com um irmão e que no próximo ano, tem alta.
“Aqui há muita força oculta, coisa que eu não admito. Mas muita força oculta que aqui há! Magia negra! As enfermeiras negras e mulatas é que fazem disso, há muito feitiço que não consigo tirar”, acusa. Identifica as macumbeiras porque mascam pastilha elástica, rangem os dentes, mas já foram todas mandadas embora, a primeira enfermaria de mulheres é agora um lugar muito mais seguro.

Atrás de muros de 4 metros – e arame farpado – os doentes de evolução prolongada sentem-se protegidos.
Sem família ou por ela rejeitados, porque é mais cómodo mantê-los no hospital, o seu número vai diminuindo, à medida que cedem à idade e à doença.

Hoje, Jaime Amaro não despe o pijama. Sábado é dia de folga e o homem que o Partido mandou para uma pensão de Alcobaça e de lá para o Hospital Miguel Bombarda quer apreciar o seu descanso.
Quando pode, aproveita para voltar à carga. “Eu estava bom, estava lúcido! Como estou agora, ao pé de si, a falar bem. Sabe bem que eu sou lúcido, não sabe que eu sou lúcido?”
Um bocadinho desorientado, emociona-se.

Américo

Pequeno, cabelo escuro, tez queimada pelo sol, Américo soma 36 anos de internamento em 56 de vida. “A minha mãe foi fazer queixa de mim e foram-me buscar. Dava-me mal com a minha família, batia-lhes. Dava-lhes pancada. Estava excitado”.
“Vai comprar! Vai comprar! Vai comprar!”, dispara a todos os que lhe pedem cigarros. Américo é um fumador compulsivo. Um homem impaciente. Com pressa de estar noutro lugar. “Davam-me tanta medicação, um gajo avaria logo, ficava logo avariado” despeja, um tanto agastado.

“Um dia abri a porta e a primeira coisa que vi foi uma pistola apontada. Entrou um grandalhão a gritar ‘Quero ser tratado! Quero ser tratado! Quero ser tratado!’ De repente parou. ‘Eu quero ser tratado antes que mate alguém. Por isso vim aqui. Faça o favor, aqui está a pistola, senhor enfermeiro. Antes que mate alguém fale com o médico para me tratar’”. Salvou-o um momento de lucidez. A pistola tinha uma bala na câmara, era só premir o gatilho – conta o Enfermeiro Carlos Magalhães, há 30 anos a lidar com a doença mental.
“Vi um outro doente atirar-se à cabeça de uma enfermeira com um ferro. Ela tinha um diabo a trepar-lhe pelas costas acima e o homem entendeu malhar no próprio demónio – a intenção era a melhor”.

Francisco

Com 68 anos de idade e 45 de internamento Francisco Costa ainda arranja força – ou raiva – dentro dele para protestar. Enquanto pôde ajudou a família na lavoura. Não conheceu a escola. Depois o pai deixou-o à porta do hospital a segui a um ataque de epilepsia. “Nunca mais fui para casa porque ninguém quis ficar responsável por mim”, arrasta as palavras. Sente-se abandonado. E foi.
“Depois de vir para aqui é que me ensinaram a ler e a escrever. Sei ler as letras de ‘empresa’”.
Entra no quarto simples, um armário, 3 camas de ferro, a mobília básica dos quartos dos doentes.
As paredes sem fotografias, sem imagens de familiares. Para quê?

Almerinda

“Eu, para lhe dizer a minha idade, não sei dizer a minha idade… tenho para aí uns 60 anos. Estou cá há uns anos”. Almerinda perdeu o fio do tempo algures nos 55 anos de internamento e 78 de vida. Sabe que uma mulher a trouxe de Olhão para o Hospital mas esqueceu que essa mulher era sua madrinha. “Eu doente não estava. Não tinha nada, ela não gostava de mim…” lamenta. Esqueceu também o desgosto que sofreu, rotulado de “traumatismo afectivo” na sua ficha de admissão.
“Gosto de estar no hospital… estou à espera que me venham ver… a família!”.
Almerinda esperou toda a sua vida as visita que não vieram. O estado de apatia em que vive não permite que se revolte.

Vitória

Alentejana de Odemira, aos 65 anos passou quase metade da vida no hospital. Do tempo que passou lá fora guarda as recordações que quer e constrói as que queria.
“Conheci o pai da minha filha, conheci-o. Na Tóbis Portuguesa, onde faziam filmes, no Lumiar. Eu trabalhava lá também, na costura, para os americanos que vinham cá fazer filmagens e precisavam de costureiras para o guarda-roupa”.
O pai da filha era produtor de cinema, mais velho do que ela. Juntaram-se e foram viver para a Rua das Taipas, em Lisboa. Depois ela adoeceu.
“Comecei a bater à minha filha com uma vassoura, para matar as bruxas, comecei a ouvir vozes. Sentia que havia bruxas dentro de casa”.

Custódio

Os doentes crónicos, também chamados de evolução prolongada ou residentes, partilham a unidade com os agudos, os temporariamente internados, à espera de alta hospitalar. Os crónicos, esses, só saem mediante “alta divina” – quando Deus quiser.
Custódio Zorro já conhece a data da sua: “Ouço uma voz que me diz que vivo até aos 294 anos”.
O “Músculos”, assim apelidavam este alentejano quando trabalhou nas obras em Lisboa, soma 61 anos de vida e 21 de internamento. Atira as culpas para os 27 meses de comissão no Ultramar, em Angola. “Foi difícil, não sei explicar”, esquiva-se, olhos húmidos colados ao chão, à procura de uma resposta.
Em 1972, quando voltou à Metrópole não tinha rédea nos nervos. Começaram os internamentos intermitentes.
“Atirei-me para um poço. Não me queria matar mas fui obrigado a isso porque as vozes diziam – atira-te ao poço! Despi-me, fiquei só em trusses e camisola interior”.
Na cabeça de Custódio estão trancadas vozes há mais de 30 anos. “Elas têm sido más. Dizem atrocidades em relação a mim. Tenho a impressão de que é o radar do Vaticano, ouço a voz do Santo Padre, do Papa João Paulo II, ouço a voz dele, ouço a voz do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo. Dizem-me coisas de que não sou apreciador, chamam-me homossexual”.

O drama de Custódio Zorro é saber que o que se passa na sua cabeça não é real, mas não compreender como escuta, de facto, uma impossibilidade.



No Miguel Bombarda o impossível está sempre a acontecer.
O homem que passeia pelo hospital com as mãos às cambalhotas como um malabarista, está é mesmo a puxar o intestino para fora da barriga, escoltado pela sua múmia de estimação. A Rainha de Portugal sai de vez em quando para ir ao banco reclamar o seu dinheiro, seu por poder legítimo e título. O primo do ex-líder dos socialistas espanhóis, Felipe Gonzalez, reivindica o direito dos doentes à dignidade e ao respeito. O verdadeiro noivo da Rainha Isabel II de Inglaterra marcha de um lado para o outro, sempre apressado, queixo erguido, cabelo puxado para trás, barba branca, algum orgulho ferido: em 1957 planeou matar o Duque de Edimburgo, o homem que lhe roubou a amada mas internaram-no no hospital antes que tivesse a hipótese. Até hoje.

“A esquizofrenia é o paradigma da doença mental: a pessoa não se sente doente, quem está doente é o outro. É uma doença que aparece na juventude – e quanto mais cedo pior. Faz-me lembrar A Metamorfose do Kafka: as pessoas acordam e são uma borboleta. E falam com uma convicção inabalável. De facto, é impossível dialogar com elas”, explica João Sennfelt, psiquiatra há 33 anos no Hospital Miguel Bombarda.

Jaime

Nessa altura já sentia uma pressão incómoda na cabeça e, incapaz de se defender, foi internado pelo Partido na Pensão residencial de Lisboa, em Alcobaça.
“Mandavam para lá tudo. Fui para lá depois de terminar com a Narcisa. Havia alguns 200 ou 300 homens, andava tudo entre os 40 e os 50 anos. Foi um partido que me lá pôs, mas não digo quem foi! Não o gramava, ainda hoje não o gramo! O Partido lixou muitos com essa brincadeira!”, enerva-se.
Um dia revoltou-se. Jaime recusou beber o café que a empregada lhe servia. Ela também era do Partido. Desconfiou daquela bica.
“Vi logo que eram coisas para me fazer mal, para me tramar”. Tinha droga.
A mulher, desmascarada, chamou os bombeiros e Jaime foi levado para o Miguel Bombarda.