
Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.
Jesús Jiménez Domínguez
Quando duas almas, e digo bem, se enamoram uma da outra, estamos perante um caso fragrante de romantismo inglês. A princesa,o dragão e o senhor chapéu de coco: tanto basta para um drama em que o remorso é o artista principal. São assim os infelizes,não conseguem partir um pratosem ficar tolhidos pelo sentimento de culpa. E por isso, sentem eles, o melhor é estar quieto na berma do sofá, e ter medo de tudo, de tudo menos da infelicidade.
José Miguel Silva
Tudo isto já beijou a dúvida na boca. Tudo isto já fingiu ter tempo para regressar. Tudo isto já supôs que agora seria diferente. Tudo isto já se empenhou em derrotar seis ou sete pessoas. Tudo isto já foi roupa a secar e a proximidade da noite. Tudo isto já encantou o estrangeiro. Tudo isto já se sentou à espera de ver. Tudo isto já rasgou o que não interessava e o que demais interessava. Tudo isto já despiu a vergonha. Tudo isto já foi de avião à sua lucidez futura. Tudo isto já enfrentou o desespero com duas moedas apenas. Tudo isto já se cansou de buscar modos de dizer. Tudo isto já foi mercúrio. Tudo isto já caiu a meio da noite sem que ninguém lhe tocasse. Tudo isto já deu o nome errado. Tudo isto já pediu para trocar tabaco. Tudo isto já se intrometeu. Tudo isto já foi demais para caber num corpo. Tudo isto já mordeu os lábios por lhe sobrar o desejo. Tudo isto já comentou as notícias terríveis a mais de cinco metros de distância. Tudo isto já presenciou a morte e o nascimento. Tudo isto já permitiu que entrasse. Tudo isto já sentiu os nervos como cordas. Tudo isto já deixou alguém adormecer. Tudo isto já inalou o ópio suave do reencontro. Tudo isto já percebeu que pode acontecer.Vasco Gato
Esta noite tive um sonho; conheci um homem que tinha
o mar no lugar do coração, e quando sentia o seu corpo contra o meu, ouvia lá fora a fúria do mar.Al Berto
Senhor, enche o meu quarto
de alto mar.
Filipa Leal
Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinha como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade
Chegámos ao amor pelos mapas vincados da solidão. Quando o veneno das últimas memórias se diluiu no sangue (como o orvalho se evapora dos salgueiros assim que março começa a conspirar), o nosso silêncio gritou para que alguém o escutasse. Despimos, pois, as estátuas um do outro sem o temor de perturbarmos o coração da pedra, e descobrimos que a nudez era a única ponte que entre nós se estendia. Nas imensas noites que se abateram sobre nós, os nossos corpos deixaram de pertencer ao mundo: foram como essas aves surdas que se afastam do bando, eternamente indiferentes ao apelo do verão. Por isso creio agora que o amor não passou de uma desculpa para juntarmos os nossos desamparos, e não estranho sequer que lábios castigados por tantos beijos como foram os teus nunca tenham nomeado essa doce fadiga que sucede a um abraço, nem me pergunto porque, ao fechar os olhos, são hoje ainda as linhas do teu rosto que as sombras teimosamente me devolvem.
Maria do Rosário Pedreira
Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,
abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.
Tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,
os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.
Francisco José Viegas
Mudemos de casa; porque é preciso
arrumar as dores de outra maneira,
certificarmo-nos da existência do corpo
em novos lençóis, voltar a ter ilusões,
lugar propício para a curiosidade
de alguns que nos fazem acreditar
que a vida é um amplo anfiteatro
para as mãos.
Jorge Gomes Miranda
Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.
Amalia Bautista






